Grécia esteve mais de metade dos últimos 200 anos
Um estudo da universidade de Harvard mostra que os gregos são recordistas nos ‘defaults’. Os mercados têm demonstrado a sua preocupação em torno da dívida grega. E os problemas de financiamento do país não são novidade. A Grécia esteve sem conseguir cumprir os seus compromissos financeiros mais de metade do tempo desde que conseguiu a independência no início do século XIX. De acordo com um estudo de professores das universidades de Harvard e de Maryland, apesar de ser o país europeu que esteve mais anos sem conseguir cumprir as suas responsabilidade desde 1800, a Grécia nem é a nação que teve mais situações de ‘default'. Essa lista é liderada pela Espanha, que desde o século XV já falhou por 13 vezes o pagamento das suas dívidas. A maior parte dessas situações aconteceu no século XIX. Já a Grécia, nos últimos 200 anos, esteve cerca de 50 anos em situação de incumprimento. Portugal tem um ‘track record' mais positivo, entrando em ‘default' por seis vezes e passando apenas cerca de 20 anos em situação de incumprimento desde o início do século XIX. Apesar da Grécia ter registado apenas quatro ‘defaults', estes demoraram bastante tempo a serem resolvidos, o que explica o título de país com maior período de tempo em incumprimento. "A Grécia chegou a viver quase num estado de ‘default' perpétuo'", referiram Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, os autores do estudo. O episódio mais longo ocorreu pouco após a independência, em 1826, com o país a ficar sem acesso a financiamento do mercado de capitais por 53 anos. Mas as associações da Grécia com ‘defaults' não se ficam pelos números. Tal como foi o berço da civilização ocidental, os gregos também foram o berço dos ‘defaults' soberanos. "Crises de dívida e ‘defaults' por parte de soberanos são tão antigas como o próprio endividamento estatal. O primeiro ‘default' documentado remonta ao século IV a.C. quando dez das 13 cidades-Estado que faziam parte da Liga Marítima Ateniense falharam o pagamento acordado com o templo de Delos", revela uma investigação realizada por Jeromin Zettelmeyer, economista do FMI, e Federico Sturzenegger, professor da Universidade de Harvard. Quais os principais motivos de ‘default'? Nos últimos dois séculos ocorreram centenas de crises de dívida soberana. E houve várias razões a levarem os Estados a não cumprirem com as suas responsabilidades financeiras, desde guerras a revoluções. No entanto, vários estudos académicos concluem que a maior parte dos ‘defaults' são originados por ‘booms' de crédito. E, de acordo com Zettelmeyer e Sturzenegger, "todos os booms de crédito até agora acabaram em crises nas quais alguns dos beneficiários dos fluxos de dívida entraram em ‘default'". As razões para o rebentar das bolhas de dívida passam por recessões, subidas dos custos de financiamento provocadas por políticas monetárias duras nos países credores e em crises nas nações endividadas. "Se a história nos diz alguma coisa, é que não podemos tirar conclusões de que desta vez é diferente. Em particular, concluir que países como a Hungria e a Grécia nunca irão entrar em ‘default', devido à União Europeia, pode ser um truísmo com vida curta", concluíram Reinhart e Rogoff depois de analisarem oito séculos de crises financeiras.
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